| A Passagem Extraordinária
O dia 3 de dezembro de 2002 marcou uma data na
história dos Santos com a perda colossal que tivemos que foi
a perda da presença física de um Satguru. Nosso amado
Gurudev, mestre Paramahamsa Hariharananda Giri, chamado afetuosamente
de Baba, respirou pela última vez às 18h48min, hora local,
em Miami. Únicas eram suas repetidas demonstrações
intencionais do estado sem pulso e sem respiração de comunhão
meditativa; seu mahasamadhi revelou também sinais legendários
do enigma yogue. Seu pulso continuou por aproximadamente vinte minutos
após sua última respiração. A quietude tornou-se
viva e, ainda, permaneceu tão silenciosa, tal era o ambiente.
Um sentimento de imenso vazio caiu sobre nós. Mas não
havia tempo para sentir o impacto. Não era uma morte comum. Em
cada momento que passava havia um lembrete da nova era para todos nós,
agora que o mestre estava unido a Deus.
Por volta das 14h00min horas deste fatídico dia, Baba abriu os
olhos olhou ao redor e apertou nossas mãos. Suas mãos
começaram a tremer. O aperto amoroso e o seu olhar eram muito
típicos da sua estadia de uma semana no hospital. Desta vez seu
aperto com a mão direita estava tão firme em minha mão
esquerda que eu não pude liberar meus dedos facilmente. Seu olhar
tornou-se fixo na distância, olhando através de tudo -
alheio aos arredores. Nossa récita do Bhagavad-Gita ficou solitária
enquanto o Baba olhava através de tudo, imerso no Senhor. Seu
olhar penetrante que encantou e levou várias almas a mergulhar
nas águas sagradas de sua compaixão estava, agora, fixo
no Absoluto. Eram aproximadamente 15h30min horas quando os olhos se
fecharam. E nunca mais se abriram. Era um capítulo a mais dos
vários momentos de concentração que conduzem ao
inevitável. Não havia tempo para sentimentos de desesperança.
Somente uma presença amorosa e sacra cercou o Baba conforme ele
ficava mais rijo e imóvel em cada batida do coração.
Foi em torno das 18h00min horas ou algo assim quando os saltos nas respirações
se tornaram óbvios. Após cada respiração,
o tempo entre elas tornou-se mais longo. Ocorreu, então, o esforço
da última respiração. Com minha mão direita
em seu peito, eu continuei a sentir seu coração. Houve
uma perda total do poder analítico em mim. Eu estava presente
em admiração porque o falecimento do Gurudev foi tão
solenemente calmo.
As qualidades extraordinárias de paciência e perdão
de Baba e seu exaltado estado espiritual de inquebrantável consciência
Divina contrastava com seu visível sofrimento humano na cama
do hospital. Às vezes expressando jóias de conselho espiritual
enquanto em outras vezes falando sobre a dor da velhice e da doença,
Gurudev continuou sua existência através de momentos alertas
e confusos. Assim, ele demonstrou o relacionamento enigmático
da alma com o corpo mesmo em seus últimos dias de presença
física. Sua doença não escondeu seus sorrisos ecléticos
que radiavam tanta alegria etéria. Devemos refletir sobre o êxtase
por trás destes sorrisos. É simplesmente a luz que vem
de dentro? Ou é a luz dentro da luz? Exibindo a luz do amor de
Deus em suas expressões de êxtase, Baba desafiava a morte
e o sofrimento para encantar a todos nós que tentávamos
servir-lhe. No pico de sua dor e doença no hospital, ele acenou
ao seu médico dizendo que ele estava bem. Certamente Baba estava
pronto para deixar-nos, como era evidente através das pistas
sutis e das predições de eventos místicos.
Durante mais de uma década de associação íntima
e muito amorosa com meu Gurudev, eu vi somente o comportamento exemplar
e os hábitos impecáveis que foram o testemunho de uma
vida simples como preconizada pelas escrituras sagradas. Realmente,
um Satguru é uma escritura viva, e o Baba não foi nenhuma
exceção. Ninguém podia deixar a presença
do Gurudev sem ser lembrado da real finalidade da vida e da Divindade.
Ele transbordava uma consciência onisciente que cercava seus discípulos
o tempo todo. Ele sempre esperava para escolher os melhores momentos
para dar conselhos aos seus discípulos e misturava suas palavras
com a doçura e a firmeza que cada situação requeria,
adequando-os à vida de cada indivíduo. Pleno de olhares
amorosos e tratando situações difíceis com a inocência
de uma criança, Baba era adorado por todos ao seu redor. Seu
jeito brincalhão e suas instruções diretas aos
discípulos ensinavam o desapego e o espírito da renuncia
interna. Justo quando pensávamos que o compreendíamos
totalmente, uma situação contrária nos colocava
em dúvida novamente. É deste reino dos Mestres que ele
ensinou com autoridade destemida a essência metafórica
das escrituras sagradas envolvendo todos os caminhos, abrangendo calmamente
os ensinamentos de todos os profetas. Seus ensinamentos sublimes da
filosofia do Yoga resumiam a Kriya Yoga como a essência do Karma
Yoga, do Jñana Yoga, e do Bhakti Yoga e com expressões
simples, tais como - a Respiração é vida; a vida
é Deus; Deus é amor, admitia respectivamente as características
principais dos três ramos da Yoga.
O oceano profundo de Deus leva os discípulos, pequenos como grãos,
para a terra aos pés de um Satguru. A mesma água sagrada
colore, padroniza e molda-os diferentemente. Uma galeria de almas sem
rumo neste mundo se refugia aos pés do Satguru, cujos caminhos
múltiplos se desdobram na realização de Deus. Nós
nos perdemos ao tentarmos analisar a nossa fé em Deus. Assim,
também, nos perdemos ao usar a razão para definir Deus.
Novamente, nos perdemos ao tentar definir o papel e a importância
de um Satguru como o Baba. É neste domínio intangível
que estão Deus e os Mestres. Pela mera presença de um
Satguru, o néctar do amor divino pode ser sentido. E é
através da fé em Deus que somos preenchidos com este amor.
O objetivo primordial da vida está neste sentimento de amor crescente.
Tal é a natureza do amor verdadeiro no domínio intangível
de Deus e dos Gurus.
Nós todos estamos de luto e sentiremos falta do olhar e da orientação
direta de nosso Mestre. Mas nossas dores, causadas por esta separação
nos elevam a uma união maior no elixir sempre crescente do amor.
Nós agora teremos que nos ajustar à presença sutil
do Satguru - Hariharananda Baba, que continua a realizar seu papel de
um local distante. Nossa satisfação está no amor
incondicional que o nosso Mestre nos tem. Agora é a hora de vivermos
os seus ensinamentos e nos tornarmos dignos de ver a Deus.
Por
Swami Vidyadhishananda Giri
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