4 de dezembro de 2002 
Comunicado à Imprensa

Ontem à noite, 3 de dezembro, o grande Kriya yogue Paramahamsa Hariharananda alcançou o mahasamadhi (união final consciente com Deus) no Hospital Batista em Miami, Flórida. Ele tinha 95 anos de idade. Cercado amorosamente por seus swamis e assistentes do ashram de Miami, ele respirou pela última vez às 18h48min EST durante o canto do mantra Gayatri. Seu batimento cardíaco parou 23 minutos mais tarde, às 19h11min pm. A causa oficial da morte foi pneumonia.

Com o falecimento desta grande alma o mundo perdeu o último discípulo realizado direto do mestre Swami Shriyukteshwar Giri, assim como uma fonte de amor, de força, e de pureza para as dezenas de milhares de discípulos que ele treinou pessoalmente e alimentou com o Amor Divino ao redor do mundo.
Nascido em Habibpur, Bengala ocidental, Índia, com o nome de Robindranath Bhattacharya, em 27 de maio de 1907, esta grande alma, conhecida carinhosamente como Baba (Pai em Sânscrito) por seus filhos espirituais, desde cedo demonstrou um destino espiritual extraordinário.

Por volta dos 4 anos e meio de idade, já tinha memorizado todos os mantras puja do hinduismo simplesmente ouvindo seu pai, Sri Haripada Bhattacharya, recitá-los algumas vezes. Sob a orientação de seu pai, dominou rapidamente a astrologia, a astronomia, e a leitura de mãos Védicas.

Com 12 anos, ele recebeu iniciação no caminho da jñana yoga do famoso mestre realizado Sri Bijaykrishna Chattopadhyaya.

Em 1932 foi encontrar-se com o grande mestre de Kriya, Swami Shriyukteshwar Giri. Satisfeito com a propensão divina do jovem Robinarayan, Shriyukteshwarji o iniciou na Kriya yoga, ensinou-lhe astrologia cósmica, e pediu-lhe para que se mudasse e tomasse conta do famoso ashram de Puri em Orissa.

Em 1935 encontrou-se com Paramahamsa Yogananda, e recebeu deste a segunda iniciação da Kriya.
Em 1938 renunciou ao mundo e juntou-se ao seu mestre, no Karar Ashram, em Puri, Orissa, começando a vida de um monge ascético sob o nome de Brahmachari Robinarayan.

Recebeu a terceira iniciação da Kriya do Swami Satyananda Giri em 1941 e, entre 1943-1945, recebeu as últimas iniciações mais elevadas da Kriya de Shrimat Bhupendranath Sanyal, o mais jovem e famoso discípulo de Lahiri Mahasaya.

Após passar 11 anos e meio em isolamento na sua cela monástica em Puri, obteve a visão do yogue eterno Babaji Maharaj em 1949, que o abençoou e profetizou que sua missão seria espalhar a mensagem original dos mestres da Kriya ao mundo inteiro.

Em 1951 recebeu de Paramahamsa Yogananda o poder para ministrar a Kriya Yoga. Começou assim seu longo trabalho de missionário que o levou ao redor de sua amada Índia. Em 27 de maio de 1959 ele fez os votos monásticos formais do Shankaracharya de Puri e renasceu como o Swami Hariharananda Giri.

O ano de 1974 marcou sua primeira viagem ao Ocidente, ao qual retornaria a cada ano e espalharia a mensagem do amor divino através da atenção consciente no Deus interior. Suas viagens levaram-no ao redor da Europa, América do Sul, Estados Unidos e Canadá, onde fundou numerosos centros e ashrams.

Sua nobre missão está sendo continuada por seus monges e acharyas que ele treinou amorosamente ao longo dos anos, e pela liderança do sucessor escolhido por ele, o Paramahamsa Prajñanananda.
 

Divina e Amorosa Alma,

Com o mais profundo amor e gratidão eu compartilho minhas condolências com vocês todos. Uma nova fase da vida veio para cada um de nós depois que o Baba fez o seu mahasamadhi em 3 de dezembro, às 18h48min. Eu percebo seus corações umedecidos, olhos cheios de lágrimas, suas mentes saudosas e sentimentos emotivos. Somente o tempo poderá curar esta ferida.

Embora o Guru espiritual esteja sempre conosco, ainda assim nós perderemos o olhar compassivo do Baba, sua voz doce, seu sorriso curador e suas brincadeiras divinas. Nos meus 22 anos de convivência com o Baba eu observei sua vida, seu amor e compaixão incondicional, que vão além das palavras e da expressão. Eu tive a oportunidade de compartilhar os últimos oito dias de sua vida neste mundo. Ao sentar-me ao lado dele no hospital eu o observei às vezes falar algo espiritual, permanecendo em algum outro plano da existência. Às vezes, seu pequeno sorriso trazia em mim a reflexão do êxtase da eternidade.

Uma coisa que eu aprendi da vida de Baba foi o seu amor incondicional. Não podemos agora seguir sua vida e ensinamentos? Que haja mais e mais amor florescendo em nossas vidas. Vamos crescer no amor para ser um discípulo digno de um mestre digno.

Este é o momento verdadeiro de testar nossa espiritualidade e paciência, nossa sinceridade e fé. Não fiquem com os corações partidos. Vamos rezar e meditar mais profundamente e com mais amor. Nossa verdadeira homenagem ao nosso amado Gurudev deve ser a autodisciplina e auto-realização.

Eu expresso minha gratidão mais profunda a todos aqueles que tenham servido Baba, direta ou indiretamente, em qualquer assunto em qualquer lugar e a qualquer hora.

Não vamos nos esquecer de que o objetivo real na vida é realizar a verdade, viver no amor e perceber a presença de Deus em cada respiração, em cada ação. Vamos juntar nossos corações e mentes, para cumprir a missão do nosso amado Baba que está sendo levada em muitos países. Sua verdadeira missão é a do amor.

Que as bênçãos de Deus e dos Gurus estejam sobre vocês todos.
Com amor e união mais profundos

Prajñanananda
5 de dezembro de 2002
 

A Passagem Extraordinária

O dia 3 de dezembro de 2002 marcou uma data na história dos Santos com a perda colossal que tivemos que foi a perda da presença física de um Satguru. Nosso amado Gurudev, mestre Paramahamsa Hariharananda Giri, chamado afetuosamente de Baba, respirou pela última vez às 18h48min, hora local, em Miami. Únicas eram suas repetidas demonstrações intencionais do estado sem pulso e sem respiração de comunhão meditativa; seu mahasamadhi revelou também sinais legendários do enigma yogue. Seu pulso continuou por aproximadamente vinte minutos após sua última respiração. A quietude tornou-se viva e, ainda, permaneceu tão silenciosa, tal era o ambiente. Um sentimento de imenso vazio caiu sobre nós. Mas não havia tempo para sentir o impacto. Não era uma morte comum. Em cada momento que passava havia um lembrete da nova era para todos nós, agora que o mestre estava unido a Deus.

Por volta das 14h00min horas deste fatídico dia, Baba abriu os olhos olhou ao redor e apertou nossas mãos. Suas mãos começaram a tremer. O aperto amoroso e o seu olhar eram muito típicos da sua estadia de uma semana no hospital. Desta vez seu aperto com a mão direita estava tão firme em minha mão esquerda que eu não pude liberar meus dedos facilmente. Seu olhar tornou-se fixo na distância, olhando através de tudo - alheio aos arredores. Nossa récita do Bhagavad-Gita ficou solitária enquanto o Baba olhava através de tudo, imerso no Senhor. Seu olhar penetrante que encantou e levou várias almas a mergulhar nas águas sagradas de sua compaixão estava, agora, fixo no Absoluto. Eram aproximadamente 15h30min horas quando os olhos se fecharam. E nunca mais se abriram. Era um capítulo a mais dos vários momentos de concentração que conduzem ao inevitável. Não havia tempo para sentimentos de desesperança. Somente uma presença amorosa e sacra cercou o Baba conforme ele ficava mais rijo e imóvel em cada batida do coração. Foi em torno das 18h00min horas ou algo assim quando os saltos nas respirações se tornaram óbvios. Após cada respiração, o tempo entre elas tornou-se mais longo. Ocorreu, então, o esforço da última respiração. Com minha mão direita em seu peito, eu continuei a sentir seu coração. Houve uma perda total do poder analítico em mim. Eu estava presente em admiração porque o falecimento do Gurudev foi tão solenemente calmo.

As qualidades extraordinárias de paciência e perdão de Baba e seu exaltado estado espiritual de inquebrantável consciência Divina contrastava com seu visível sofrimento humano na cama do hospital. Às vezes expressando jóias de conselho espiritual enquanto em outras vezes falando sobre a dor da velhice e da doença, Gurudev continuou sua existência através de momentos alertas e confusos. Assim, ele demonstrou o relacionamento enigmático da alma com o corpo mesmo em seus últimos dias de presença física. Sua doença não escondeu seus sorrisos ecléticos que radiavam tanta alegria etéria. Devemos refletir sobre o êxtase por trás destes sorrisos. É simplesmente a luz que vem de dentro? Ou é a luz dentro da luz? Exibindo a luz do amor de Deus em suas expressões de êxtase, Baba desafiava a morte e o sofrimento para encantar a todos nós que tentávamos servir-lhe. No pico de sua dor e doença no hospital, ele acenou ao seu médico dizendo que ele estava bem. Certamente Baba estava pronto para deixar-nos, como era evidente através das pistas sutis e das predições de eventos místicos.

Durante mais de uma década de associação íntima e muito amorosa com meu Gurudev, eu vi somente o comportamento exemplar e os hábitos impecáveis que foram o testemunho de uma vida simples como preconizada pelas escrituras sagradas. Realmente, um Satguru é uma escritura viva, e o Baba não foi nenhuma exceção. Ninguém podia deixar a presença do Gurudev sem ser lembrado da real finalidade da vida e da Divindade. Ele transbordava uma consciência onisciente que cercava seus discípulos o tempo todo. Ele sempre esperava para escolher os melhores momentos para dar conselhos aos seus discípulos e misturava suas palavras com a doçura e a firmeza que cada situação requeria, adequando-os à vida de cada indivíduo. Pleno de olhares amorosos e tratando situações difíceis com a inocência de uma criança, Baba era adorado por todos ao seu redor. Seu jeito brincalhão e suas instruções diretas aos discípulos ensinavam o desapego e o espírito da renuncia interna. Justo quando pensávamos que o compreendíamos totalmente, uma situação contrária nos colocava em dúvida novamente. É deste reino dos Mestres que ele ensinou com autoridade destemida a essência metafórica das escrituras sagradas envolvendo todos os caminhos, abrangendo calmamente os ensinamentos de todos os profetas. Seus ensinamentos sublimes da filosofia do Yoga resumiam a Kriya Yoga como a essência do Karma Yoga, do Jñana Yoga, e do Bhakti Yoga e com expressões simples, tais como - a Respiração é vida; a vida é Deus; Deus é amor, admitia respectivamente as características principais dos três ramos da Yoga.

O oceano profundo de Deus leva os discípulos, pequenos como grãos, para a terra aos pés de um Satguru. A mesma água sagrada colore, padroniza e molda-os diferentemente. Uma galeria de almas sem rumo neste mundo se refugia aos pés do Satguru, cujos caminhos múltiplos se desdobram na realização de Deus. Nós nos perdemos ao tentarmos analisar a nossa fé em Deus. Assim, também, nos perdemos ao usar a razão para definir Deus. Novamente, nos perdemos ao tentar definir o papel e a importância de um Satguru como o Baba. É neste domínio intangível que estão Deus e os Mestres. Pela mera presença de um Satguru, o néctar do amor divino pode ser sentido. E é através da fé em Deus que somos preenchidos com este amor. O objetivo primordial da vida está neste sentimento de amor crescente. Tal é a natureza do amor verdadeiro no domínio intangível de Deus e dos Gurus.

Nós todos estamos de luto e sentiremos falta do olhar e da orientação direta de nosso Mestre. Mas nossas dores, causadas por esta separação nos elevam a uma união maior no elixir sempre crescente do amor. Nós agora teremos que nos ajustar à presença sutil do Satguru - Hariharananda Baba, que continua a realizar seu papel de um local distante. Nossa satisfação está no amor incondicional que o nosso Mestre nos tem. Agora é a hora de vivermos os seus ensinamentos e nos tornarmos dignos de ver a Deus.


Por
Swami Vidyadhishananda Giri